Vi a crítica do novo show e cd "Acesa" e concordo com quase tudo que foi dito.
Sempre considerei Alcione uma das maiores cantoras desse Brasil varonil e peço aos os mais chegados que não me deixem mentir. Não só pela sua potência vocal, técnica e sentimento, mas pela sua verdade escrachada que permeia todos os apetrechos necessários `a carreira de uma grande cantora. Não pretendo fazer especulações deliberadas sobre um ou outro tópico do novo trabalho dessa incrível profissional da voz. Não sou crítico musical nem quero ser, além de minhas opiniões muitas vezes serem um pouco polêmicas, o que disvirtuaria completamente o objetivo dessa publicação tardia salvadora do ostracismo do Jacaré. Na verdade, a intenção é falar da pequena parte que discordo.
Lia o texto com voracidade e suspirava de emoção enquanto me dava conta que existia alguém no mundo que comungava da mesma opinião que eu, sempre repreendido pelos meus quando declarava pública minha opinião sobre Alcione, de fato, uma cantora cheia de excessos, em todos os sentidos. Um tapa na cara das cantoras ajeitadinhas e arrumadinhas, vítimas da assepsia fashion que se apropriou da música brasileira desde que a Bossa Nova provou que não era preciso ter voz pra cantar. A música para os ouvidos vinha para amenizar o sofrimento histérico cantado pelos grandes boêmios, revolucionando o mercado fonográfico e dando oportunidade `aqueles que se sentiam reprimidos e discriminados por não terem recebido de Deus um instrumento vocal com potência `a altura de seus talentos . Mas isso também é outro assunto, não quero perder o "mio da feada ".
Vinha feliz, andando nas estradas da leitura, quando senti o calo apertar, pois é claro que em algum momento ele chegaria na Lapa. E taí, mais uma vez generalizava-se o samba que fazemos como uma série de universitários almofadinhas, pesquisadores reprodutores sem nenhuma consciência e, como gostam de dizer os que estão de fora do movimento, "sem pegada".
Poderia começar de novo defendendo o bairro que, na minha humilde opinião de cantor e compositor popular, nada mais é que a continuação de tudo que aconteceu na música brasileira desde as festas nos quintais das tias baianas até hoje. O refúgio atual da classe artística contemporânea é formado pelos mesmos quarteirões que compuseram num passado não muito distante um reduto musical alternativo, transformando-se rapidamente em um dos principais pólos de produção e reprodução de cultura carioca, brasileira e ( porque não dizer ?) mundial. Todavia, também acho que não é o caso de me estender nesse assunto. Pelo menos não agora.
Toda vez que lia algo depreciando a música que fazemos sentia-me atingido, pois sei que nasci para o Brasil desse movimento e sou cria dessas vielas. Era como se falassem diretamente comigo, sentia-me roubado de algo que era real, coeso, maduro, consistente, uma construção nossa que era facilmente julgada pelos famosos "entendidos" e alvo constante da crítica dos excluídos .
Até que ontem `a tarde, procurando um motivo pra escrever, pensei: - Será que eles estão sabendo realmente o que é a Lapa ? Será que o que está sendo divulgado no país e fora dele é realmente o que vejo, aquela miscelânea de tribos e informações contribuinte direta para uma nova forma de se pensar música no Brasil? Ou o que está sendo divulgado com o rótulo de "Lapa" é o que os veículos de comunicação pensam ou determinam que é ?
É a Lapa de Áurea Martins, uma das maiores cantoras do Brasil, que recebeu seu primeiro prêmio de música aos 68 anos, que está sendo falada ? De Yamandu Costa, Nicolas Krassik, Hamilton de Hollanda, radicados no Rio como tantos outros geniozinhos que fazem do nosso querido bar Semente o seu quintal ? Aqueles que trouxeram uma nova forma de se consumir música instrumental brasileira ? MÚSICA INSTRUMENTAL BRASILEIRA ! A Lapa de Luíza Dionízio, uma das maiores sambistas do Brasil, que lança seu primeiro disco após 20 anos de carreira ? De Teresa Cristina, Ana Costa, Nilze Carvalho, todas essas pretas maravilhosas de verdades e talentos transbordantes, integrados e ao mesmo tempo distintos ?
Ou será outra coisa que está sendo divulgada, chamariz de críticas que recaem sobre nós, crias desse maravilhoso bairro boêmio ? Onde estão Pedro Miranda, Hollanda, Moraes e Amorim senão nos braços do Brasil e do mundo? Será que explorando Alfredo del Penho e Mariana Bernardes como referências dessa continuidade musical as coisas não seriam diferentes ? Rhichah, Marquinho China, Gallotti, João Martins e Makley, grandes sambistas, nova e velha geração. Compositores como Wilson das Neves, Nei Lopes, Wilson Moreira, Toninho Geraes, Luiz Carlos da Vila exploravam e ainda exploram nossas ruazinhas pra mostrar a sua arte e serem ainda mais ovacionados.
Não quero desmerecer ninguém nem dizer quem deve e quem não deve estar nos braços da mídia. Tem muita gente merecedora que já encontrou seu caminho, mas tem muita gente boa na batalha que ainda precisa ser observada. Basta só se ligar se estamos observando as coisas certas. É claro que tenho minha opinião, mas esse "post" é somente um convite `a reflexão. O samba taí, com verdade e consciência, dando origem a novos talentos, a produção não pára. E a Lapa confirma a tradição, assim como a nossa querida Marrom, no ponto maior do mapa. Salve a Lapa !